A Universidade de Brusque (UNIFEBE) mantém um programa de doação de corpos destinado ao ensino e à pesquisa no curso de Medicina. A iniciativa permite que pessoas manifestem, ainda em vida, o desejo de doar o próprio corpo para contribuir com a formação de futuros profissionais da saúde.
Em entrevista ao Conexão 92, o professor de Anatomia Humana e coordenador do Programa de Doação de Corpos da UNIFEBE, Rafael Saviolo Moreira, explicou que a prática é amparada pelo artigo 14 do Código Civil, que autoriza a doação do corpo para fins científicos e educacionais.
Segundo ele, apesar dos avanços tecnológicos, como modelos anatômicos, aplicativos e recursos digitais, o contato com o corpo humano continua sendo essencial na formação médica.
"Quando o aluno tem contato com o cadáver, ele compreende melhor a anatomia e também desenvolve respeito pela vida e pela finitude humana", destacou.
O professor explica que qualquer pessoa interessada pode manifestar o desejo de ser doadora. O cadastro é realizado por meio do site da UNIFEBE, onde estão disponíveis todas as informações e a documentação necessária. No momento do falecimento, a família comunica a universidade, que realiza todos os procedimentos legais para receber o corpo.
Apesar da manifestação de vontade do doador, a decisão final permanece com a família.
"A última palavra é da família. Se ela decidir não realizar a doação, esse desejo é respeitado pela universidade", afirmou Rafael Saviolo.
Outro ponto destacado pelo coordenador é a preservação da identidade dos doadores. Os corpos são utilizados exclusivamente para atividades de ensino e pesquisa, sem qualquer tipo de exposição pública ou identificação dos estudantes.
"O laboratório não é um museu. Há um cuidado muito grande com a privacidade e com o respeito ao doador", explicou.
De acordo com o professor, o estudo em corpos reais permite que os acadêmicos compreendam as diferenças anatômicas entre as pessoas, algo que não pode ser reproduzido por modelos artificiais.
"Cada corpo é único. Os estudantes aprendem que existem variações anatômicas importantes, conhecimento que será fundamental quando estiverem atendendo pacientes ou realizando procedimentos cirúrgicos", ressaltou.
A universidade também aceita corpos de pessoas que foram doadoras de órgãos. A retirada de órgãos para transplante não impede a utilização do restante do corpo para o ensino, já que diferentes sistemas anatômicos continuam podendo ser estudados pelos alunos.
Segundo Rafael Saviolo, os corpos passam por processos específicos de conservação, como o uso de formol ou glicerinização, o que permite que permaneçam sendo utilizados por cerca de 15 anos em atividades de ensino e pesquisa.
O coordenador enfatizou ainda que o respeito ao doador é um princípio inegociável dentro da instituição.
"Quem doa o corpo continua ensinando mesmo após a morte. É um gesto de altruísmo que contribui diretamente para a formação de médicos mais preparados e, consequentemente, para uma assistência de melhor qualidade à população", concluiu.




