A festa cósmica das danças

O chefe do Observatório Astronômico de Brusque, o astrônomo Silvino de Souza, pesquisou sobre a possível origem do Carnaval. Segundo a tal pesquisa, a festividade pode ter começado na Idade Média.

Abaixo, o artigo de autoria de Silvino:

"Desde as mais distantes eras, os diferentes povos estabeleceram algumas festas de grande alegria. Assim, encontram-se entre os egípcios as festas de Ísis e do touro Ápis, bacanais entre os gregos, as luopercais e as saturnais entre os romanos. Todas envolviam festins, danças e disfarces. Embora seja muito difícil caracterizar a origem verdadeira do Carnaval, parece que os nossos atuais festejos estão intimamente associados às duas últimas festas romanas. Logo após o início do ano novo, os romanos comemoravam as saturnais festas instituídas por Janus em memória do deus Saturno que, segundo a lenda, teria transmitido a arte da agricultura para os italianos.

Durante as saturnais, as distinções sociais não eram levadas em consideração. Os escravos ocupavam os lugares de seus patrões, que os serviam à mesa. Nesse período, não funcionavam os tribunais e as escolas. Os julgamentos eram suspensos e os condenados não podiam ser executados. Interrompia-se toda e qualquer hostilidade. Os escravos percorriam as ruas cantando e se divertindo na maior desordem. As casas eram lavadas e purificadas. As pessoas de determinado nível social preferiam se retirar para o campo, durante as saturnais, o que permitia ao povo celebrar com maior alegria esse período de liberdade.

Os romanos faziam sua purificação pelas comemorações das lupercais, festas celebradas em 15 de fevereiro, em homenagem ao deus Pã, matador da loba que aleitara os irmãos Rômulo e Remo, fundadores de Roma, segundo a lenda. Nesses festejos, celebrava-se o princípio da fecundidade. Durante as comemorações das lupercais, untados em sangue de cabra e lavados com leite, os lupercos, nus, com uma pele de bode sobre os ombros, saíam pelas ruas batendo nos pedestres com uma correia de couro.

As mulheres grávidas saíam às ruas e se ofereciam às correiadas, na esperança de escaparem das dores do parto. Por outro lado, as mulheres com desejo de terem um filho, também procuravam ser atingidas, na esperança de virem a engravidar. 

Quando do surgimento do cristianismo, a igreja teve apenas uma saída. Adotou-os e, ao mesmo tempo, procurou santificá-los. De fato, o Carnaval parece ter tido sua origem nessas antigas comemorações pagãs. Com efeito, o atual Carnaval era o tempo de regozijo, que ia desde a epifania até a quarta-feira de cinzas. Com o tempo, essas festa acabou limitada aos últimos dias que antecediam ao início da quaresma, período com os dias que vão de quarta-feira de cinzas até o domingo de Páscoa. Durante os quais, os católicos e ortodoxos faziam suas penitências.

O período carnavalesco variava (e ainda varia), de acordo com as tradições de cada país. Deve ter surgido primitivamente na Idade Média, em 25 de dezembro, incluindo a festa de Natal, o dia do ano novo e a epifania (6 de janeiro). Mais tarde, passou a ser comemorado desde o dia de Reis até um dia antes das cinzas. Em alguns lugares da Espanha, sua comemoração incluía a quarta-feira de cinzas.

Em alguns países, só se comemora na terça-feira, ao passo que no Brasil é festejado no sábado, domingo, segunda e terça-feira. Na Bahia, comemora-se o Carnaval também na quinta-feira da terceira semana da quaresma. Trata-se da micareta, festa popular carnavalesca que tem sua origem na mi-carême.

Esses festejos não eram simples rituais desprovidos de significação mais profunda, como se poderia supor. Na verdade, as festas populares cíclicas dos países cristãos, que serviam para abrir o ano e anunciar a vinda da primavera, estão todas elas intimamente associadas ao fenômeno astronômico do solstício de inverno no hemisfério norte, de onde surgiram todas essas práticas. As igrejas católica e ortodoxa herdaram tais festas ou rituais do mundo greco-romano que, por sua vez, as teriam recebido do oriente.

Assim, na realidade, todos os festejos cíclicos, tais como o próprio Carnaval, estariam associados às regiões que apresentam as mesmas mudanças meteorológicas. Assim, as festas do Carnaval comemoradas durante o inverno no hemisfério norte, são celebradas no hemisfério Sul em pleno verão".

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