As mãos que aparecem na fotografia já tentaram contra si mesmas. Elas pertencem a uma mulher a quem vamos atribuir o nome de Ana para preservar sua verdadeira identidade. Ela mora em Brusque e hoje faz tratamento no CAPS II – o Centro de Atenção Psicossocial direcionado aos transtornos mentais.
Agora, Ana se recupera do seu último surto, ocorrido em maio deste ano, e que novamente a fez tentar tirar a própria vida. Foi como se tivesse acontecido um apagão. “Eu estava na garagem da minha casa. Lembro de ter feito um chá para tomar meu comprimido para dormir. Quando acordei, estava no hospital”, conta.
Foi nesse momento que ficou apagado, que Ana pegou uma corda e tentou suicídio. A nora foi quem a encontrou e chamou socorro. No hospital, inúmeros procedimentos para evitar sua morte foram tomados e têm consequências físicas no seu corpo até hoje. A drenagem pulmonar a deixou com dificuldades respiratórias e a reanimação cardiorrespiratória causou lesões no tronco que ainda doem. “Então, no hospital, me disseram que eu tinha tentado me enforcar. E eu não acreditei”, lembra Ana.
Drama mundial
A história de Ana é o exemplo de uma situação que ocorre em muitos lares brasileiros, mas raramente é compreendida. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio em algum ponto do planeta. O Brasil está em 8º lugar nesse ranking e a região Sul, com a forte influência da colonização europeia e as exigências pelo status, é onde está a maior proporção de casos de suicídios e tentativas no país.
Por isso, a Associação Internacional de Prevenção ao Suicídio criou uma campanha mundial chamada de Setembro Amarelo com o objetivo de levar informação, esclarecer mitos e derrubar preconceitos acerca do assunto. No Brasil, diversas entidades abraçaram a ideia como o Conselho Federal de Medicina e a Associação Brasileira de Psiquiatria.
Em Brusque, o representante da associação é o psiquiatra Denys Tomio. Segundo ele, diversos fatores precisam ser levados em conta quando se fala em suicídio. Ele geralmente está relacionado a doenças psiquiátricas que precisam ser tratadas como transtorno bipolar e depressão. Além disso, o vício em substâncias químicas, principalmente o álcool, também é um fator que aumenta o risco. “A dependência de álcool é a segunda maior causa de aumento de potencial de suicídio no mundo”, ressalta.
Em relação ao apagão mencionado por Ana, Tomio explica que ele ocorre no ápice de uma crise, mas que é possível prevenir. “Pelo menos 70% das pessoas que cometem suicídio deixam inúmeros sinais. Cabe à família perceber e tentar ajudar. O preconceito e os mitos atrapalham muito. O maior deles é o de que falar sobre suicídio pode estimular a pessoa a cometê-lo e é o contrário. Quando mais diálogo, quanto mais a pessoa se sentir acolhida, maiores as chances de evitar que ela chegue a esse ponto”, recomenda.
Perfil
Como não há um motivo específico que leva alguém a tirar a própria vida, não é possível definir que tipo de pessoa tem mais tendência a cometer a atitude. O que se sabe é que há faixas etárias em que ela é mais frequente: entre 15 e 30 anos e a partir dos 65 anos.
A responsável pelo CAPS II de Brusque Inajá Gonçalves de Araújo confirma essa estatística. “Observamos que nos últimos três anos houve uma elevação de aproximadamente 30% de tentativas entre jovens adolescentes mulheres com idade entre 14 e 22 anos. Acreditamos que a correria do dia a dia e a falta cada vez maior de apoio familiar sejam a causa”, avalia.
Família
Oferecer apoio, principalmente familiar, é o principal caminho para ajudar alguém a desistir da ideia de tirar a própria vida. Todo transtorno mental é tratável, seja através de medicamentos ou terapias.
Ana, que ainda supera o trauma dia após dia e traz o ponto de vista de quem vive a depressão, salienta a importância do diálogo, da compreensão e principalmente do não julgamento especialmente por parte dos familiares. “Quando alguém disser que não está bem, que sente angústia, tristeza, acredite. Não diga que é mentira, não diga que a depressão não existe, porque ela existe sim”, sentencia.
Agora, lutando para esquecer o passado, Ana olha para frente. Faz os acompanhamentos necessários e planeja voltar ao trabalho, à companhia dos filhos e do neto. “Hoje eu não choro mais. Não tem como expressar o que a gente sente agora. É muito bom viver”, finaliza.
Informações
Os sites das entidades envolvidas com o Setembro Amarelo estão repletos de informações sobre como ajudar alguém em dificuldades psicológicas e como prevenir o suicídio.
Através do site da Associação Brasileira de Psiquiatria estão sendo realizadas diversas ações como palestras online e distribuição de material digital. A entidade também tem uma página no Facebook.
O Conselho Federal de Medicina traz dezenas de informações e também tem dicas para ajudar através deste endereço, onde é possível baixar uma cartilha sobre o assunto.
E não podemos nos esquecer ainda do CVV – Centro de Valorização da Vida, que desde 1962 trabalha efetivamente para ajudar pessoas que estejam com dificuldades, principalmente a depressão. O site do CVV está disponível aqui.
No topo da matéria, você pode conferir os depoimentos de Ana, do psiquiatra Denys Tomio e as orientações de Inajá Araújo sobre como encontrar ajuda e tratamento através da rede pública de saúde de Brusque.


