Generalizar, agora não!
Depois do episódio de quarta-feira passada em Brusque, quando a Polícia Federal, depois de uma investigação que durou onze meses, prendeu várias pessoas, entre elas policiais, neste final de semana conversamos com vários policiais, militares e civis. Todos, indistintamente, estão abalados. Estão, na verdade, com vergonha da sociedade.
E não é pra menos. De serviço ou de folga, ouvem chacotas em público e forçosamente ficam calados. Afinal, ao menos em Brusque, onde exercem uma função pública e são remunerados com dinheiro público, suas instituições foram envolvidas com o episódio.
Em sua grande maioria, esses policiais moram em Brusque, convivem com nossa sociedade, aqui eles têm famílias, parte deles tem esposas, têm filhos. Uns poucos policiais, entre eles um delegado em fim de carreira e que exercia cargo de confiança do governador e era o chefe supremo na região, mandava não só nos agentes, como também nos delegados.
Outro, um oficial da PM com patente de major, chegou a responder pelo comando da Guarnição Especial da PM em Brusque. Outros, soldados apenas, resolveram ir pela contramão daquilo que se propunham como agentes fiscalizadores da Lei. Agora, presos, acusados de envolvimento em crimes de contravenção, favorecimento, formação de quadrilha e outros, irão responder por isso. Caberá depois, à Justiça, finalmente, dizer se são ou não culpados.
Nesse momento, cabe à sociedade, em sinal de reconhecimento, solidariedade e principalmente de respeito para com os policiais que não foram presos, que não estão sob investigação, que de nada estão sendo acusados - até prova em contrário. Eles não podem responder pelo que não fizeram.
Aquelas pessoas, e todos nós já sabíamos quem fazia o quê de ilegal e de imoral, subestimaram o Poder Judiciário, a própria polícia, se achavam superiores a Lei, estavam acima da sociedade.
Esses, certamente, só pelo fato de terem sido presos em uma mega operação pública da Polícia Federal e expostos através da imprensa até a nível nacional, certamente também serão punidos pela Justiça, se comprovada a participação.
Entendemos ser muito difícil a Polícia Federal ter errado, não ter coletado provas suficientes. Até porque todo o trabalho de onze meses foi acompanhado de perto pela Promotoria de Justiça, que também aqui em Brusque foi subestimada pelos acusados. A sociedade de Brusque não pode esquecer que a investigação já estava sendo feita em junho do ano passado.
Depois de junho do ano passado, muitas coisas aconteceram em Brusque e a Polícia já estava escutando e gravando telefones, fazendo imagens, levantamentos. E tudo isso que os agentes da Polícia Federal apuraram está em três volumes, com mais de mil páginas desse inquérito.
Não podemos esquecer que esse inquérito pode ter se desdobrado em outros, por tudo o que os policiais ouviram e viram nesses onze meses. Quem garante que por conta disso não está em andamento outras investigações, outros inquéritos? Não podemos esquecer que o dinheiro arrecadado com a jogatina, dinheiro dos brusquenses que gostam de jogar em caça níqueis, pode ter servido para outras finalidades.
Então, tirar sarro da cara dos policiais que estão aí trabalhando, pode não ser o mais correto neste momento. Afinal, os que estão aqui trabalhando não foram presos. Se não foram presos ou não estão sob investigação, podem sim, e devem trabalhar de cabeça erguida porque nada devem.
Em todos os setores de nossa sociedade temos pessoas corretas e algumas nem tanto. Basta ligar o rádio, a televisão, ler os jornais e todos os dias temos a prisão de jornalistas, advogados, policiais, engenheiros... mas, não podemos passar a régua e generalizar. Quantos juizes já foram presos? Até presidentes de tribunais foram parar na cadeia e os outros magistrados estão trabalhando, de cabeça erguida, porque são honestos.
Não é o fato de agora estarem presos alguns policiais que vamos esquecer o que suas instituições realizaram, graças ao empenho, a seriedade e o amor pela profissão daqueles que aí estão. Não vamos esquecer o que já fizeram de bom e que vão continuar nos dando segurança. Para os policiais que não tiveram seus nomes envolvidos com essa quadrilha nos resta dizer, na verdade, que devem sim, não ter vergonha de nada.
Os colegas que se deixaram levar por alguns Reais a mais no final do mês, que respondam por seus atos. Às esposas e filhos dos policiais que aí estão trabalhando, ergam a cabeça e tenham orgulho do marido e do pai para quem vocês rezam todos os dias para que voltem vivos pra casa.
Sabemos, não é segredo, até porque não precisa esconder de ninguém, a maioria desses policiais faz bicos, mas dentro da legalidade. Trabalham nas horas de folga. Até sabemos que pra viver e manter a família, com o que ganham é difícil. É comum a gente ver policiais, na sua folga, estarem trabalhando em outras atividades. Como também é comum ver esses policiais exercendo a função de policial, também quando está de folga.
Esses são policiais porque gostam, estão conscientes da profissão que abraçaram. Trabalhar não é vergonhoso. Trabalhar com dignidade engrandece o ser humano. Se outros poucos ganham ilicitamente, tenham certeza que isso não será eterno. Se persistirem, um dia a casa cai.
A lista com os nomes dos que recebiam parte dos lucros da jogatina é grande, e aos poucos todos saberão quem estava ganhando e principalmente porque estava ganhando.
Quanto aos policiais, resta mais uma vez lembrar a frase do delegado Alonso Torres, dita nos microfones da Rádio Cidade, no ano passado. "Polícia e bandido não podem andar na mesma mão de direção. Não existe meio policial, assim como não existe meio bandido. Polícia e bandido não se misturam, nem na hora da prisão".
Certamente o comando da Polícia Militar vai vir a público para esclarecer à nossa sociedade, das atitudes tomadas em relação àqueles que serão afastados das atividades. O mesmo deve acontecer com a Secretaria de Segurança Pública, quanto aos policiais civis.
Certamente, agora, aquele que vai comandar a policia civil em Brusque, na cadeira de Delegado Regional, seja ele o delegado Juscelino Boss, o delegado Alonso Torres ou outro cujo nome ainda não se confirmou, terá daqui para a frente a dura tarefa de não se deixar envolver por grupos e ser apenas aquilo que a função exige.
Para evitar transtornos futuros, certamente quem assumir a regional precisará ter a liberdade de comandar e, se necessário, fazer mudanças, tomar a decisão de mudar para o bem da sociedade. Para isso são pagos com dinheiro do povo, o qual devem servir e prestar contas com transparência.
Não podemos esquecer que antes do corrompido existe o corruptor. Nós, a sociedade, temos nisso tudo uma grande parcela de culpa. Somos culpados pelo silêncio. Somos culpados porque alimentamos a jogatina, mesmo sabendo que é ilegal e todos nós, indistintamente, sabíamos e continuamos sabendo agora ainda mais, para que serve o dinheiro arrecadado com a contravenção, com o comércio de drogas.
Então, não tirem sarro dos policiais que estão trabalhando, porque os errados somos nós. E não se surpreendam se outra operação da Polícia Federal vier a acontecer a qualquer momento. Não jogue pedra na casa do vizinho, se você tem telhado de vidro. Se você sonega impostos, se você faz lavagem de dinheiro, se você trafica drogas, se você compra cargas roubadas, se você alimenta os furtos de veículos, se trapaça com o seguro.
Com certeza, em onze meses, desde junho do ano passado, a Polícia Federal deve ter grampeado o telefone de muita, mas muita gente, que gastou o que não tinha, que pagou com o que não ganhou, que vendeu o que não devia e que chegou onde não podia, com o que não lhe pertencia. A Justiça tarda, mas não falha. A Polícia Federal também.


