Almir Paz, reportagem especial para a Rádio Cidade
Desde sua inauguração, em 17 de agosto de 2012, a Praça da Cidadania, localizada no Centro de Brusque, desperta atenção de moradores e autoridades. O motivo? Consumo e o aparente tráfico de drogas envolvendo adolescentes, entre outros frequentadores. Mas se trata apenas de especulações ou realidade?
Para essas e outras conclusões a respeito do assunto, nossa equipe realizou uma reportagem especial, em que além de acompanhar os frequentadores e pessoas que diariamente transitam no local, ouviu autoridades como os da segurança pública e profissionais que acompanham os jovens diariamente.
Thiago Queiroz (29) é uma destas pessoas. Ele trabalha em uma sapataria ao lado do Shopping Gracher e passa todos os dias pela Praça da Cidadania. Thiago relata que, às vezes, se assusta com alguns jovens, que logo de manhã cedo, estão no local a praça consumindo bebidas alcoólicas. “Eles deveriam estar na escola estudando ou mesmo fazendo algum estágio. Trabalho há um ano e meio aqui próximo e digo que já foi bem pior”, desabafa ele, lembrando de um caso onde um jovem costumava furtar celular e saia correndo.
Um adolescente de 17 anos, frequentador do local, afirma que há muitos que acabam por prejudicar a imagem do espaço por conta de tais atitudes. “ Tem muita gente que vende e usa droga. isso inclui álcool, cigarro, maconha, cocaína, LSD e não está no controle da polícia, porque quando ela chega, eles vão se refugiar na quadra fingindo estar jogando futsal,”, pontua o menor. Segundo ele, houve situação em que os policiais chegaram no local e fizeram abordagem das pessoas que estavam ali. Era início da noite e o menor relata que ninguém estava a fazer nada de errado, como o uso de entorpecentes. Porém, havia um grupo que estava usando drogas instantes antes da chegada dos PMs fingia praticar esporte em outro espaço ali perto.
Outro adolescente frequentador da praça, que não quer se identificar, diz que se não fosse o trabalho dos seguranças do local e da PM, o lugar estaria entregue aos usuários e traficantes. “Encontro minha namorada aqui todos os dias e a polícia nunca nos abordou. Se eles não viessem aqui, estaria pior. Tiveram que colocar um placa para proibir o uso de bebidas alcoólicas. Mesmo assim, desobedecem”, conta o rapaz.
A voz das autoridades
A falta de comprometimento e não participação ativa na vida dos filhos tem sido fatores agravantes para o aumento de jovens no mundo da criminalidade. Palavras do major Otavio Manoel Ferreira Filho, que responde interinamente pelo 18º Batalhão da Polícia Militar de Brusque. “Hoje, o pai protege o filho em detrimento a qualquer coisa, tenta proporcionar para ele o que, muitas vezes, não teve. Daí, essa liberdade excessiva”, reflete o policial, opinando que ouso exagerado das mídias sociais, também tem contribuído para a perda de controle dos filhos acrescenta.
Segundo o major, a Praça da Cidadania lidera as denúncias feitas à PM sobre situações envolvendo suposto consumo e comercialização de drogas. Principalmente as que envolvem menores. Na sequência aparece a do Maluche e, em terceiro, a Praça Gilberto Colzani. Somente em 2014, de acordo com dados da Polícia Militar de Brusque, foram 394 ocorrências desta natureza em toda cidade. “Esse número poderia ser maior, uma vez que os usuários, ao verem a presença da polícia, dão jeito de se livrar, escondendo ou descartando a droga em alguma parte da praça, fugindo, portanto do flagrante. Trata-se do usuário-traficante”. Segundo o major, no segundo semestre de 2014 o número de ocorrências diminuiu em relação a 2013, devido ao reforço do policiamento extra nas praças.
O início das aulas e o retorno do ano letivo nas escolas costuma ser o instante em que a presença dos jovens nestes locais, principalmente na Praça da Cidadania, ficam maior. Pela proximidade de colégios de grande porte, como Feliciano Pires, Cônsul Carlos Renaux, além do próprio terminal urbano, que fica ao lado da praça, muitos jovens que não vão às aulas se deslocam para a praça. “Eles (os pais) precisam acompanhar mais ativamente da vida dos filhos, determinando ocupações e metas a serem cumpridas. Muitas vezes, o erro não está na legislação, como os pais alegam que a lei não permite mais educar os filhos da forma”, complementa o policial.
Fase ou preocupação!
Para Larissa Gelatti, coordenadora do Projeto Arte em toda Parte, da Prefeitura de Brusque e que funciona na Fundação Cultural, anexo à Praça da Cidadania, o problema não é apenas o consumo e tráfico de drogas, como todos pensam. O aspecto como a presença de estilos diferenciados, assim como algumas brincadeiras, faz com que esses jovens sejam malvistos aos olhos de quem habitualmente passa por lá. Quanto os fazem o uso de drogas no local, Larissa afirma que o problema não está apenas no jovem, mas concorda que a responsabilidade também está nos pais. “Não é só o adolescente que está doente. São os pais também que precisam de ajuda. Muito deles, que não querem acompanhar, que não tem tempo ou disponibilidade. Em algumas situações tentamos contato com os eles, nem sempre temos resposta”, ressalta a coordenadora.
Segundo ela, no local há jovens alunos com problemas e que às vezes a equipe tenta conversar com os pais, mas não tem sucesso. “Às vezes por vergonha, por falta de interesse, não ter disponibilidade e tempo. Aqui da Fundação Cultural, sempre temos tentado resgatá-los em parceria com a Assistência Social. Conversamos com o Conselho Tutelar, que orienta os adolescentes para irem aa algum curso”.
O Projeto Arte por Toda Parte oferece mais de mil vagas todo ano. Foram 19 cursos oferecidos no ano de 2014. São projetos que não se limita somente na sede da Fundação, mas também são levados aos bairros. Entre eles há aulas de violão, artesanato, arte fotográfica, pintura em tela, entre outros. “Procuro muito eles (os adolescentes). Tento sempre chegar mais perto, mas têm muito irredutíveis, que a gente não consegue chegar perto. Mas vemos que é uma fase, são adolescentes muito carentes, que já trazem o problema de casa”, afirma a coordenadora.



