"Ninguém é obrigado a me aceitar, mas respeito eu exijo das pessoas"
Difícil crer que em pleno século 21, a intolerância ainda seja um dos grandes males da humanidade. Apesar dos avanços tecnológicos e do rompimento de fronteiras materiais para além da civilização, o ser humano ainda não consegue superar algumas barreiras dentro de si próprio. O preconceito é uma delas. E só quem vive ou sentiu na pele sabe o real significado dessa palavra.
É o caso de Priscila Lucia, (30), auxiliar administrativo. No caso dela, uma verdadeira batalha surgiu entre o instante em que se descobriu homossexual e o de dizer isso à sociedade. A primeira parte não foi difícil, mas a etapa seguinte ainda a faz sentir os reflexos quase que diariamente.
"Poderia ter sido bem antes do que realmente foi. Digamos que fui assumir pra mim mesma, me entender, quando eu tinha 27 anos. Com 25 eu comecei a ficar confusa e com 27 decidi que era hora de eu mesma me aceitar", comenta ela.
Entre os desafios que enfrentou, está a não aceitação de amigos, colegas e a difícil separação em um relacionamento aos moldes tradicionais. Sim, ela foi casada com um homem. Relação que lhe rendeu duas filhas, que são "a sua vida", como diz ela. Relacionamento de uma história curta, cheia de incertezas, mas que se encerrou com a convicção de que foi honesta não apenas com o então parceiro e marido, mas consigo mesma.
Lésbica, gay, homossexual. Não importa o termo, o rótulo que as pessoas pregam ou a sociedade convencione. Ela lida bem com isso e não faz questão de esconder nada. Se questionada, age com a naturalidade que gostaria de ver na face e expressões das pessoas quando descobrem sua opção sexual.
"O mundo está cheio de hipocrisias. Os padrões mudaram. O mundo mudou. A família mudou. Dizer que tem que ser um homem e uma mulher? E se é um homem e uma mulher, que para a sociedade é um lindo casal, mas entre quatro paredes não se gostam, maltratam as crianças ou não cuidam direito delas? O que importa mesmo numa família é o cuidado, o amor, a doação, sabe? O resto é tudo hipocrisia da sociedade, que insiste em dizer o que é certo e o que é errado, quando entre quatro paredes a maioria faz o que é realmente errado", desabafa.
Priscila conta que já foi muito discriminada em uma religião a qual freqüentou. Era deixada de lado. Na universidade, que ainda assiste aulas, chegou a discutir com um professor. O motivo: preconceito sexual. "Quem tem o ódio, a insegurança, o preconceito enraizado, usa a parte ruim dos ensinamentos, que de repente foi mal traduzida, ou até mesmo não cabe mais aos nossos dias e usa como argumentação para defender a idéia preconceituosa deles".
Para Priscila Lucia, o 29 de agosto, Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, é uma data especial para uma camada da população brasileira, que como ela, sofre muito com o preconceito e a intolerância sexual. Segundo ela, é preciso, sim, comemorar pelas conquistas alcançadas a cada ano que se passa. Mas apesar de existir um dia para lembrar a luta dele de tantas outras mulheres que se encontram na mesma situação, a conscientização tem que ser diária. Conviver e aceitar as diferenças alheias continua sendo um dos maiores desafios do ser humano, de milhares, talvez milhões de Lucias espalhadas pelo mundo a fora.
Ouça na íntegra, no link abaixo, o áudio da entrevista com Priscila. Clique e ouça.
Colaboração: João Victor Gonçalves
Entrevista - Dia nacional da visibilidade lésbica by Rádio Cidade AM



