Após 7 anos, mulher descobre que nunca teve Aids
A dona de casa Maria Gonçalves (37) estava grávida e realizava exames de pré-natal. Era 2003. Ela era atendida no posto de Saúde do bairro Maluche. Na época, a amostra de sangue coletada foi enviada para dois laboratórios diferentes: o Lacen (Laboratório Cental, do Estado), em Florianópolis, e um particular de Brusque. Nos dois laboratórios foi constatado que Maria era portadora do vírus da Aids.
Maria recebeu a pior noticia da vida.
Desde então, o fato mudou completamente a rotina da dona de casa, que tinha apenas quatro anos de casada. O marido desconfiava que ela o havia traído. Atendentes de hospitais e postos de Saúde discriminavam Maria. “Me colocavam longe das pessoas, como se eu fosse um animal carimbado”, relembra indignada.
As brigas constantes, em função da desconfiança, fez com que ela saísse de casa com os filhos. Pouco tempo depois, o esposo Sérgio Baungartner pediu que Maria esquecesse tudo e voltasse com as crianças. Entretanto, apesar do apoio e do voto de confiança dado pelo marido, cada vez que havia uma discussão conjugal o assunto voltava à tona.
Começava então uma nova fase: a de adaptação à doença. O casal precisava ter cuidado nas relações sexuais e usar preservativo, mas Sergio não utilizava. Nem tampouco relatava isso aos profissionais de Saúde. “No fundo, eu sabia que ela não tinha nada”.
Depois Maria lutava para esconder a noticia de familiares. “Meu filho vinha em minha casa e eu escondia todos os exames e remédios. Não queria que ele soubesse. Mas, minha mãe morreu achando que eu tinha Aids”.
Passados 7 anos de angústias, depressão, sofrimentos, rejeição social e inúmeros outros problemas, em outubro de 2009 Maria novamente estava no posto de Saúde do bairro Maluche, onde era acompanhada por profissionais do Dst/Aids.
Foi quando o médico disse que ela não poderia ter a doença, já que não tinha nenhum sintoma característico de uma pessoa portadora do vírus HIV. Um dos fatores foi o ganho de peso. Maria passou de 59kg, em 2003, para quase 100kg no final do ano passado.
Desconfiado de que algo estava errado, o médico pediu então um novo exame de sangue, que acabou confirmando a suspeita. Maria nunca teve a doença. Por segurança, foram realizadas três coletas e feitos três exames. E em nenhum foi constada a doença.
Assim que recebeu a noticia,ela disse não saber se foi bom ou ruim. “Já tinha aceitado a idéia de que iria morrer. Apenas estava esperando isso acontecer. À noite, quando olhava meus filhos ainda pequenos, chorava ao pensar neles sozinhos”, relatou Maria entre uma lagrima e outra.
Agora, ela e o marido buscam junto ao advogado da família, Luiz Gustavo Santana, “que seja feita justiça”. Maria está entrando com uma ação judicial por danos morais e por vários outros prejuízos que acredita ter sofrido O resultado do processo, que pode levar alguns anos para ter a sentença final, é a esperança de recuperar parte da dignidade abalada em 7 anos vividos, e “que outras pessoas não passem o que passei”.
Nessa quarta-feira (3), Maria e Sergio completam 11 anos de casamento.
Para eles, a boa nova foi o melhor presente.
Francisco Carlos e Liliane Dias



