Dar voz às mulheres esquecidas pela história foi o objetivo central da jornalista e historiadora Márcia Peixe Vargas ao escrever o livro Memórias em Movimento. A obra resgata trajetórias femininas da Colônia Nova Itália, em São João Batista, a partir da memória oral e de entrevistas em profundidade. Em entrevista ao programa Rádio Revista Cidade, Márcia explicou: “Quis olhar para o que ainda reverbera hoje e dar nome e voz às mulheres que a história oficial invisibilizou”.
Resultado de sua dissertação de mestrado na UDESC, defendida em 2019, o projeto selecionou quatro personagens com perfis distintos para representar diferentes vivências de uma comunidade marcada pela imigração italiana. As histórias revelam escolhas ousadas para a época: mulheres que evitaram a lida na roça, que assumiram a administração da família sozinhas ou que dividiram o trabalho pesado com o marido na extração de madeira.
A escritora destacou o método que utilizou: a história oral, dentro da perspectiva da história do tempo presente. “Elas não apenas ajudavam: trabalhavam de fato e moldavam a realidade possível, cada uma à sua maneira”, ressaltou. O livro também recupera lembranças do período em que funcionou a usina de açúcar de São João Batista, entre as décadas de 1940 e 1990, quando gerações de mulheres participaram da cadeia produtiva da cana.
Além de reconstruir o cotidiano da Colônia Nova Itália, a pesquisa convida a refletir sobre genealogia e memória familiar. Muitas vezes, observou a autora, a narrativa começa pelo lado masculino — pais, avôs e bisavôs — enquanto a experiência das mulheres permanece oculta. Memórias em Movimento busca reequilibrar essa contagem, valorizando as marcas deixadas por elas nas famílias e na comunidade.
O livro foi publicado com apoio da Lei Aldir Blanc e da Fundação Cultural de São João Batista. Para Márcia, mais do que registrar histórias, o trabalho é um chamado à ação: “É hora de tirar projetos da gaveta e disputar memória com método e sensibilidade — as leis de incentivo estão aí para isso”. A autora lembrou ainda da 6ª edição da Festa Lígure de Nova Itália, no dia 14 de setembro, às 10h, no salão da igreja Colônia Nova Itália, como exemplo de como a cultura e a memória seguem vivas na comunidade.



