Cravados nas encostas e parcialmente tomados pela vegetação, os antigos fornos de cal de Botuverá permanecem como marcas silenciosas de um ciclo econômico que ajudou a moldar a história do município. À primeira vista, são ruínas. De perto, revelam-se estruturas robustas, pensadas para resistir ao fogo contínuo e ao peso do tempo. Hoje, esses vestígios despertam não apenas curiosidade, mas também um novo olhar sobre preservação, memória e futuro.
A produção artesanal de cal foi, durante décadas, uma atividade fundamental na região. O calcário extraído localmente era transformado por meio de um processo longo e intenso, realizado em fornos estrategicamente posicionados no terreno. Cada fornada exigia dias ininterruptos de trabalho, consumo elevado de lenha e acompanhamento constante dos trabalhadores, cuja experiência substituía qualquer instrumento de medição.
As estruturas ainda visíveis revelam esse passado de trabalho duro. Entradas arqueadas, paredes enegrecidas pela fuligem e tijolos marcados pelo calor extremo indicam a função precisa de cada elemento. Nada ali era decorativo. Tudo obedecia à lógica da resistência e da funcionalidade, em um tempo em que a produção dependia essencialmente da força humana e do conhecimento transmitido pela prática.
Ao redor dos fornos, corredores subterrâneos, pilares de sustentação e áreas cobertas indicam os espaços de apoio à atividade. Eram locais de circulação, abrigo e organização do trabalho cotidiano. Hoje, esses ambientes estão ocupados pelo silêncio, pela umidade e pela vegetação que lentamente retoma o espaço, num processo que contrasta com o ritmo intenso que ali existiu.
Com o avanço da industrialização e a consolidação de métodos modernos de produção, a atividade entrou em declínio. O abandono dos fornos foi gradual, e as estruturas passaram a integrar a paisagem como ruínas esquecidas, à margem das políticas públicas e do planejamento urbano. Ainda assim, resistiram. E é justamente essa permanência que as transforma em patrimônio histórico-industrial, capaz de contar a história do trabalho, da economia e da relação entre homem e natureza em Botuverá.
Mais do que vestígios físicos, os fornos de cal são testemunhos de um modo de vida. A produção ali desenvolvida foi essencial para a construção de casas, muros e igrejas, além de aplicações agrícolas e sanitárias. Cada fornada representava não apenas um produto, mas o sustento de famílias e o funcionamento de uma economia local baseada no esforço coletivo.
Uma nova jornada pela memória catarinense
Esta reportagem inaugura a série especial “SC Sobre Rodas”, um projeto da Rádio Cidade, que percorre Santa Catarina sob a perspectiva da locomoção em motorhome, conectando história, turismo e empreendedorismo regional. A estreia da série acontece justamente em Botuverá, valorizando um patrimônio que une passado, identidade e potencial turístico.
O conteúdo será compartilhado em todas as plataformas da Cidade FM — YouTube, Instagram, Facebook e no site oficial, com material completo em texto, vídeo, entrevistas e reportagem especial. A proposta é ampliar o acesso à memória regional, fortalecer o turismo cultural e estimular o olhar empreendedor sobre os territórios catarinenses, mostrando que cada estrada percorrida guarda histórias que merecem ser contadas.



