Em entrevista ao Conexão 92 desta quinta-feira (29), a protetora animal Bianca Machado falou sobre a dura realidade da causa animal, os limites da legislação brasileira e o impacto do caso do cachorro Orelha, morto de forma cruel na Praia Brava, em Florianópolis. O episódio ganhou repercussão internacional e voltou a colocar em pauta a necessidade de punições mais severas para crimes contra animais.
Bianca, que já foi chefe do setor de Bem-Estar Animal, destacou que, apesar de não ser possível reverter o que aconteceu, casos de grande repercussão costumam servir como marco para avanços legais, assim como ocorreu em outros momentos da história brasileira. Para ela, o caso Orelha pode se tornar mais um símbolo de mudança, desde que haja pressão contínua da sociedade e atuação firme das autoridades.
A protetora avalia que existe um esforço por parte de delegados e ativistas ligados à causa animal, mas que o principal entrave ainda está no Judiciário. Segundo Bianca, muitas vezes o trabalho de investigação e denúncia esbarra em decisões judiciais lentas ou brandas, o que gera frustração até mesmo entre profissionais da segurança pública.
Ao falar da realidade local, Bianca afirmou que o maior problema enfrentado hoje é o de maus-tratos, principalmente aqueles que acontecem longe dos olhos da população, dentro de casas e quintais. Ela relatou que, em poucos dias, vários animais foram internados, a maioria vítima de violência ou abandono, além de casos recorrentes de envenenamento de cães e gatos.
Durante a entrevista, Bianca contou com detalhes o caso do cão Gael, encontrado gravemente ferido em uma área de descarte irregular. O animal havia sido atropelado, jogado em um barranco e ainda coberto com entulhos. Apesar do resgate e do atendimento veterinário, ele não resistiu aos ferimentos. Para a protetora, situações como essa evidenciam o nível de crueldade enfrentado diariamente por quem atua na causa animal.
Outro ponto levantado foi a falta de estrutura pública para acolhimento e tratamento dos animais. Segundo Bianca, atualmente os resgates e atendimentos são feitos de forma totalmente independente, com recursos próprios e ajuda da comunidade. Ela ressaltou que o maior desafio não é apenas financeiro, mas a ausência de agilidade administrativa e de políticas públicas eficazes.
Bianca também citou municípios que se tornaram referência na área, como Blumenau e Santa Cruz do Sul (RS), que investiram em políticas de longo prazo, com foco em castração, atendimento emergencial e adoção responsável. Para ela, o sucesso dessas cidades mostra que resultados não surgem da noite para o dia, mas exigem planejamento, comprometimento e pessoas realmente engajadas.
Por fim, a protetora fez um apelo à conscientização da população, destacando que abandono não é solução e que adotar um animal envolve responsabilidade, tempo e cuidado. Segundo ela, muitos pedidos de “recolhimento” escondem apenas a tentativa de transferir o problema para terceiros. Bianca reforçou que mudar essa mentalidade é essencial para reduzir os casos de sofrimento animal e construir uma sociedade mais humana.



