O nome Spinelli Produções sempre apareceu discreto, em letras miúdas, nos cartazes de festas que reuniram nomes como Gusttavo Lima, Luan Santana e Hugo & Guilherme. Na manhã desta terça-feira (07), porém, o dono da empresa, José Clemir Spinelli, de 54 anos, ganhou destaque por outro motivo: foi preso na Operação Pão e Circo, deflagrada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC).
A prisão
Spinelli foi detido em Itapema, no Litoral Norte catarinense, em ação conjunta do Gaeco com a Polícia Civil. Sócio-administrador da Spinelli Produções e Eventos, ele é apontado pelas investigações como um dos articuladores de um cartel voltado à fraude em licitações públicas para contratação de shows com artistas de renome nacional em municípios de Santa Catarina.
Uma trajetória marcada por grandes festas
A empresa de Spinelli está por trás de algumas das maiores festas populares do estado. Entre os eventos sob sua responsabilidade estão a 11ª Festa do Trator, prevista para o fim de julho em Irineópolis, com Hugo & Guilherme, Rafa & Junior e Antony & Gabriel no line-up, e a 10ª Festa do Tropeiro, em Monte Castelo, que deve reunir Luan Pereira e João Bosco & Vinícius.
A produtora também esteve à frente da 28ª Festa Nacional da Cebola, realizada entre 7 e 12 de abril deste ano em Ituporanga, com apresentações de Gusttavo Lima, Luan Santana, Clayton & Romário e Eduardo Costa, contratados após processo licitatório firmado com a prefeitura do município.
Nas redes sociais, Spinelli costumava publicar fotos ao lado de artistas do sertanejo, como Israel & Rodolfo, João Neto & Frederico e Luan Pereira, além de registros de viagens e momentos em família. A investigação, no entanto, faz questão de separar o crime apontado do trabalho dos artistas: as irregularidades investigadas estão relacionadas aos processos licitatórios que viabilizaram os eventos, não às apresentações em si.
O esquema investigado
Segundo o Ministério Público, Spinelli é suspeito de integrar um cartel que teria estruturado um esquema de fraude em licitações com o objetivo de eliminar a concorrência, manipular preços e monopolizar a contratação de grandes atrações artísticas em municípios catarinenses.
De acordo com o MPSC, as fraudes eram acompanhadas do pagamento e recebimento de propina entre empresários e agentes públicos, além de operações de lavagem de dinheiro para ocultar os valores obtidos de forma irregular.
Uma passagem breve pela política
Spinelli também já tentou uma carreira política: em 2022, foi candidato a deputado federal por Santa Catarina pelo PSB, mas recebeu apenas 437 votos e não se elegeu. Anos depois, voltou aos noticiários, desta vez, atrás das grades.
A reportagem entrou em contato com a Spinelli Produções e com a defesa de José Clemir Spinelli, mas não obteve resposta até a publicação desta matéria. O espaço segue aberto para manifestação de ambas as partes.
Abrangência da operação
A Operação Pão e Circo cumpre, ao todo, 50 mandados de busca e apreensão em 19 municípios, 18 em Santa Catarina e um no Rio Grande do Sul. Em território catarinense, as diligências atingiram residências e órgãos públicos em Abdon Batista, Apiúna, Aurora, Bombinhas, Brusque, Canoinhas, Governador Celso Ramos, Indaial, Itaiópolis, Itapema, Laurentino, Mafra, Palhoça, Porto Belo, Pouso Redondo, Santa Terezinha, São Bento do Sul e Três Barras. No Rio Grande do Sul, um mandado foi cumprido em Porto Alegre.
Como parte dos investigados possui foro por prerrogativa de função, as medidas foram autorizadas pelo Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJSC).
Bens bloqueados e medidas cautelares
Além das prisões e buscas, a Justiça determinou uma série de medidas contra agentes públicos, ex-agentes públicos, empresários e demais investigados. Segundo o Ministério Público, cerca de R$ 9 milhões em bens e valores foram bloqueados para garantir eventual reparação ao erário.
Também foram impostas medidas cautelares como afastamento de funções públicas, restrições para contratar com o poder público, proibição de acesso a repartições municipais e proibição de contato entre investigados e testemunhas. A investigação segue em sigilo.




